Invasão ao Capitólio nos Estados Unidos da América

Ontem era para ter ocorrido apenas mais um evento protocolar das eleições americanas. Depois do pleito popular em 3 de novembro e a votação do Colégio Eleitoral em 14 de dezembro, o dia 6 de janeiro oficializaria a escolha das urnas: Joe Biden e Kamala Harris como presidente e vice do país.

Confronto com a polícia, quebra-quebra, invasão do Congresso e até mortes. Dessa forma, apoiadores de Donald Trump tentaram impedir a proclamação de Joe Biden como novo presidente dos Estados Unidos. Os episódios de violência colocam em xeque as últimas duas semanas de mandato do republicano, que já recebeu pedidos de remoção e impeachment.

Nas primeiras horas da manhã fria de 6 de janeiro, o clima em torno do Congresso americano era amistoso. Por volta das 9h, senhoras ensaiavam passinhos ao som de Macho Man, do Village People, uma mulher distribuía adesivos e um menino lia quadrinhos sentado na grama enquanto a mãe, com camiseta de Donald Trump, gritava palavras de ordem como "Mais quatro anos" e "Parem a roubalheira".

Manifestante ocupa a cadeira do presidente do Senado 
estadunidense em protesto pró-Trump nos EUA




4 morrem durante invasão ao Congresso dos EUA

A polícia da capital americana Washington informou que quatro pessoas morreram durante a invasão de extremistas apoiadores de Donald Trump ao Capitólio, edifício sede do Congresso dos Estados Unidos, nesta quarta-feira (6). Quatorze policiais ficaram feridos.

Entre os mortos, está uma mulher apoiadora de Trump baleada pela guarnição que faz a segurança do Capitólio. Ela foi atendida no hospital, mas não resistiu aos ferimentos. As autoridades não deram detalhes sobre as demais vítimas. Segundo a polícia, elas sofreram "emergências médicas" do lado de fora do edifício.

A emissora de TV KUSI, de San Diego, na Califórina, falou com o marido da mulher morta e a identificou como a veterana de guerra Ashli Babbit, que serviu por 14 anos na Força Aérea. Ele disse que ela era "muito patriota e grande apoiadora de Trump".

Mais cedo, o jornal “Washington Post” afirmou que Babbit foi atingida no ombro. A polícia investiga o que aconteceu. "Mulher branca, baleada no ombro", disse um dos atendentes que a levou a uma ambulância com paramédicos que chegou ao local para prestar socorro, de acordo com o jornal. Policiais do Capitólio abriram caminho para que o veículo se aproximasse.

Diversos relatos na imprensa já falavam de uma mulher gravemente ferida, retirada ensanguentada de dentro do salão onde ocorria a sessão que iria certificar a vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais de 2020.

Apoiadores de Trump, que não aceitam o resultado, interromperam a sessão ao invadir o local. Deputados e senadores foram retirados do prédio pouco antes da invasão.

Em mensagem nas redes sociais, o presidente Donald Trump pediu que os seus partidários protestassem "pacificamente" e que confiassem nas forças de segurança americanas. Entretanto, momentos antes, houve vandalismo e confrontos durante a tentativa de invasão, quando extremistas conseguiram ultrapassar as barreiras de segurança e entrar no Capitólio.

Por causa dos confrontos, a prefeita de Washington, Muriel Bowser, declarou toque de recolher na cidade a partir das 18h (locais, 20h de Brasília). A medida ficará em vigor por 12 horas. A prefeitura também fechou os centros de testagem para a Covid-19.

O governador de Virginia, Ralph Northam, declarou estado de emergência e também estabeleceu um toque de recolher a partir das 18 horas nas regiões de Arlington e Alexandria, que ficam nas proximidades de Washington DC.



Bombas caseiras e selfies com policiais

Do lado de fora do prédio, nas escadarias e janelas, bandeiras da campanha foram penduradas, como se um território tivesse sido conquistado. Vídeos da ação mostram que os invasores enfrentaram pouca ou nenhuma resistência das forças de segurança do Capitólio e a ação da polícia está sob escrutínio para saber se houve leniência com os trumpistas e explicar porque a defesa do prédio parecia tão precária considerando-se que o evento era previsto há dias.

Um vídeo de um policial tirando uma selfie com manifestantes dentro do Capitólio e imagens dos trumpistas deixando o prédio sem serem presos ou questionados viralizaram na internet alimentaram as críticas.

Do lado de dentro, as cenas que se seguiram confirmaram as piores previsões dos apoiadores de Trump. Ao menos uma mulher civil não oficialmente identificada foi morta com um tiro no pescoço disparado pela polícia dentro do prédio. Nas imediações, outras três pessoas morreram em condições não esclarecidas. Os policiais localizaram três bombas caseiras e um artefato carregado para lançamento de coquetéis molotov no Congresso.

Manifestantes invadiram galerias e gabinetes, depredaram móveis, acessaram computadores, quebraram janelas. Um dos invasores sentou-se tranquilamente na cadeira da presidente da Câmara e checou a caixa de e-mails dela, deixada aberta na correria da retirada. Apavorados, deputados se jogaram no chão para tentar se proteger de tiros.

"Achei que teríamos que lutar para escapar", afirmou o deputado democrata Jason Crow, ex-combatente do Exército americano no Iraque. Crow ajudou os colegas a fazerem barricadas e se protegerem do gás lacrimogêneo, além de orientá-los a retirar os broches de lapela que os identificavam como parlamentares e poderiam convertê-los em alvos fáceis. Ao menos 14 policiais ficaram feridos e 52 pessoas foram presas.

"O que Trump causou aqui é algo que nunca vimos antes em nossa história. Nenhum presidente jamais deixou de conceder ou concordar em deixar o cargo após a votação do Colégio Eleitoral, e acho que o que estamos vendo hoje é o resultado disso, o resultado de convencer as pessoas de que de alguma forma o Congresso iria anular os resultados desta eleição, os resultados de sugerir que ele não deixaria o cargo. Essas são coisas muito perigosas, e isso fará parte do legado dele. É um momento perigoso para o país", disse a deputada Liz Cheney, mais cedo atacada pelo presidente, à rede NBC News.

Editoriais do jornal The Washington Post e da revista The Atlantic pediam a retirada imediata de Trump do poder.

De acordo com o jornal The New York Times e as redes CNN e CBS, o próprio gabinete de Trump e congressistas republicanos cogitam a possibilidade de invocar a emenda 25 da Constituição, que estabelece condições para que um governante seja retirado do cargo em caso de insuficiência para o posto, para abreviar o já curto período do mandatário na Casa Branca. A justificativa para a medida seria a inicial recusa de Trump de convocar a Guarda Nacional para reprimir a invasão do Capitólio. Coube ao vice Mike Pence, junto com a presidente da Câmara Nancy Pelosi determinar a ação das forças de segurança na cidade.

Horas após a invasão, o presidente falhou em condenar os atos, gravou um vídeo em que dizia aos manifestantes que os "amava" e postou uma mensagem em sua conta de Twitter em que dizia: "Isso é o que acontece quando a sagrada e acachapante vitória eleitora é tirada viciosamente e sem cerimônia de patriotas que têm sido tratados tão mal e injustamente por tanto tempo. Vão para casa em paz. Lembrem deste dia para sempre". As postagens foram retirada do ar por violar as políticas de não incitação à violência da plataforma e Trump teve suas contas de Twitter, Facebook e Instagram suspensas por até 24 horas.

O clima de medo se espalhou pela cidade. A prefeitura impôs toque de recolher de 12 horas a partir das seis da tarde e as escolas avisaram aos pais que buscassem imediatamente seus filhos por falta de segurança na cidade. Assessor de segurança do Pentágono, o vizinho da repórter da BBC ligou no início da tarde sugerindo que, se ainda estivesse na área do Congresso, abandonasse o local imediatamente. Apenas alguns quarteirões distante do Capitólio, Washington D.C. parecia uma cidade fantasma. A capital americana passará os próximos 15 dias em Estado de Emergência, e o mandato de Trump termina oficialmente em duas semanas.
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